18 de abril de 2016

O Brasil sem o PT

Há um contraste muito visível entre o tempo antes do PT e o tempo em que esteve no poder. Quando eu era criança, o Brasil devia 1 trilhão de juros aos credores internacionais. Pobres como a minha família não entravam em certos restaurantes e lojas. Já tive que tomar banho com álcool por falta d’água, além de passar por longos apagões. Para entrar numa universidade era necessário pagar a prova para cada uma delas. As bolsas de graduação pagavam ao pesquisador a bagatela de 190 reais. O salário mínimo custava apenas 270.

Em 2003 compramos nosso primeiro computador. A internet era discada porque nenhuma empresa queria colocar banda larga na favela. Hoje só existe uma que faz isso, de maneira rudimentar. A redução do IPI permitiu que o pobre tivesse qualidade na sua casa. O governo abriu mão de arrecadar impostos para beneficiar o povo. E comprei geladeira, fogão, maquina de lavar, celulares, computadores, roupa, eletrodomésticos, móveis. Tudo com uma bolsa de 400 reais da UERJ.

A economia cresceu. Em 2008, enquanto empresas ao redor do mundo fechavam as portas, o Brasil fez os olhos dos investidores olharem para o país de terceiro mundo, que agora é emergente. Ouço muitos falando de crise, mas em 2013 uma senhora entrevistada pela rede globo em um shopping disse que “neste natal não vai ser lembrancinha, será presente mesmo”. No mesmo ano, a Wolksvagen produziu o comercial do Fusca 2013, onde as pessoas do passado olhavam o carro do futuro, onde o Brasil é “um país de primeiro mundo”. Lojas de Paletas Mexicanas, franquias e mais franquias se espalharam pelo país.



Ouço também pessoas reclamando da falta de saúde, educação e segurança e culpando o PT por isso. Entretanto, essas áreas são de responsabilidade dos governos estaduais e municipais. E diga-se de passagem, mais do que a obrigação vem sendo feita. A boliviana do Mais Médicos foi a única que conseguiu detectar que eu tenho pressão alta. Mesmo tendo passado por diversos médicos públicos e particulares. Estudei numa das melhores universidades do país. Tive professores que ao final da aula atendiam filas de pessoas querendo autógrafos. Faço mestrado, numa área nova, aberta justamente no governo do PT.

Sou professor e sei o quando a educação é importante para não permitirmos a barbárie. As pessoas se esquecem do quanto sofremos. Quantos nordestinos, como bem nos lembra Maria Bethânia em seu primeiro disco, saíram dos seus estados para fugir da seca e da fome. Ninguém ousou transpor o São Francisco. Ninguém ousou olhar o Nordeste como uma região de progresso. Hoje a fome não estampa os jornais. A fome deu lugar ao ódio.



Desculpe senhores se estou Sendo parcial. É que o PT imitou nações como Alemanha, Inglaterra, Suíça e Japão. Fez deste país a 7 maior economia do mundo. E o que me espanta é que as pessoas estejam mais preocupadas com o preço do iphone e do videogame do que com a qualidade de vida dos mais necessitados.

Sem mais,

Eu mesmo.

10 de outubro de 2015

Cabeças de Vento na Classe Média



Devido à proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), considerei a pertinência desta análise. A classe média brasileira, em sua cegueira por cercear a imagem de Dilma Rousseff, assume gafes que não são aceitáveis dentro de um contexto intelectual saudável. Lê-se que não proponho a polarização política, mas uma análise linguística dos procedimentos empregados nos discursos da Presidente do Brasil.
Antes de tudo, é preciso entender que os discursos são textos e como tais apresentam natureza dialógica (BAKHTIN:1929). Em outras palavras, há um emissor e um receptor. Dizendo assim parece óbvio, todavia, conhecer esses dois sujeitos faz toda a diferença na seleção vocabular, na estrutura dos períodos, nos atos de fala e figuras de linguem. Se o equilíbrio entre emissor e receptor não for mantido, ruídos de linguagem bloquearão a compreensão do texto.

O primeiro discurso a ser analisado é o de julho de 2015. A frase viral "Não vamos colocar uma meta, vamos deixar a meta aberta. Depois vamos dobrar a meta.” Mais do que não conseguir compreender é simplesmente não incutir o mínimo esforço para a interpretação. Algumas intertextualidades, associadas ao conhecimento de mundo fazem-se imprescindíveis. Primeiramente, o contexto refere-se ao SEBRAE, um grupo de apoio às pequenas e médias empresas, que curiosamente trabalha com metas para seus clientes. O trabalho com metas nas empresas costumeiramente gera queda na qualidade do serviço. Algo semelhante ocorreu com o surgimento das NEPs na Rússia, onde metas estabelecidas a cada 5 anos eram superadas e, como consequência, houve uma grande perda de capital humano. Deixar algo aberto significa não estabelecer um limite para o crescimento. Dobrar a meta “infinita” significa, então, sempre superar a si próprio. 

Outro discurso que chama atenção é o de junho de 2015 com as frases “a mandioca é uma das maiores conquistas do Brasil” e “nos tornamos homo sapiens ou mulheres sapiens”. A primeira é uma referência ao marco histórico onde deixamos de ser nômades para sermos sedentários. Plantamos nosso próprio alimento, que no caso do Brasil é a mandioca. O Brasil conquistou um alimento com a sua identidade nacional, assim como a batata na Alemanha.

 

A segunda expressão é um Détournement, um recurso comum nas campanhas de publicidade. Trata-se de selecionar uma expressão popular e modificá-la, sem alterar sua estrutura original, a fim de provocar humor. Obviamente, a compreensão depende do capital cultural do receptor da mensagem.  Em “Mulheres sapiens” ocorre a substituição da palavra latina Homo, ação afirmativa feminista.

 

“Então, se a contribuição dos outros países, vamos supor que seja desenvolver uma tecnologia que seja capaz de na eólica estocar, ter uma forma de você estocar, porque o vento ele é diferente em horas do dia. Então, vamos supor que vente mais à noite, como eu faria para estocar isso?”

 

O “estoque de vento” nada mais é que uma metonímia. Um pouco de atenção do receptor da mensagem faria com que se percebesse que a palavra vento substitui “energia eólica” que como qualquer tipo de energia elétrica pode ser estocado. Além disso, uma simples pesquisa no Google leva ao conhecimento da AWEA (American Wind Energy Association), entidade que se presta a realizar pesquisas relacionadas ao estoque de energia eólica, em termos metonímicos, estoque de vento. Aparentemente, há vento demais na cabeça da classe média brasileira que não permite o sucesso na compreensão desta simples figura.

 

 “Ontem eu disse ao presidente Obama que era claro que ele sabia que depois que a pasta de dentes sai do dentifrício ela, dificilmente, volta pra dentro do dentifrício, então, que a gente tinha de levar isso em conta…”

 

Por último, outro caso de Détournement. Lembrando que para entendê-lo é preciso ter a referência original da expressão modificada. No caso, a expressão é “merdas cagadas não voltam ao cu”. Em suma, as cicatrizes não somem, referindo-se ao caso das espionagens americanas.

 

Desejo que após este texto, os vestibulandos dobrem a meta de estudo e que jamais atinjam a meta, mas a deixem em aberto, pois limitar o conhecimento é alienar-se.

;)

16 de março de 2015

Pauliceia Desvairada, de 1922 a 2015


Após um ano sem escrever uma linha blog, as Musas cantaram ao meu ouvido e aqui estou a comentar o curioso fenômeno ocorrido no dia 15 de março de 2015, em diversas cidades do Brasil. Estou no meu quarto, no alto de um morro, em Niterói, olhando o Pão de Açúcar ser iluminado pelo sol da manhã, onde não se ouvem panelas batendo. Contudo, a Pauliceia Desvairada, mais isolada que Havana esteve na tv, no Facebook e em tudo quanto é canto.

Plagiando descaradamente Mario de Andrade, grito: Este prefácio, apesar de interessante, inútil. Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita, trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou.

De fato, só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. De resto ficamos 54 milhões de um lado, 51 milhões de outro. Num cabo de guerra onde cada um afunda na lama. Uns mais, outros menos. Como crianças querendo um mesmo brinquedo. E assim nos tornamos brasileiros.

O que houve em 15 de março de 2015 não foi uma manifestação. Toda manifestação precisa de uma manifesto. Trata-se de um documento produzido em comum acordo para que fique claro o que se pede. Os comunistas, os modernistas, os protestantes e até mesmo os nazistas possuem ao menos um. Já dizia Oswald que só não há determinismo onde há o mistério. Mas que temos nós com isso? Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

Leitor: Está fundado o Desvairismo. Sejam 210 mil ou 1 milhão. Em 2013, um grupo de mascarados fez seu manifesto. Em 2015, ninguém sabe o que se foi pedir. Fim da corrupção? Com a camiseta da CBF (a maioria falsificada, fabricada por peruanos que trabalham na escravidão paulista)? À noite um pacote de medidas contra a corrupção foi anunciado. Mais panelas. Não era isso que queriam, então. Impeachment? De uma presidente eleita há menos de seis meses? Por que não votaram na oposição, então? Onde estava essa gente toda em outubro? Vendo Big Brother? Não querem que o Brasil se torne Cuba, Venezuela, Uruguai, Argentina? Engraçado, todos esses países possuem o IDH maior que o do Brasil. Significa que eles possuem qualidade de vida maior que a nossa. Não querem isso para o Brasil? Estranho.

Ando me perguntando o que essa gente pensa que está fazendo. Será que ninguém reparou que quando se faz esse tipo de coisa a Bolsa de Valores desestabiliza? Aí depois vai bater panela pelo preço da gasolina e dizer que é culpa do PT. Fico imaginando como pessoas que defendem “família tradicional” saem às ruas em pleno dia do Senhor a chamar uma chefe de estado de puta, vagabunda, piranha. Pensei estar ouvindo Geni e o Zepelim, de Chico Buarque: “E também vai amiúde/ Com os velhinhos sem saúde/ E as viúvas sem porvir/ Ela é um poço de bondade/ E é por isso que a cidade/ Vive sempre a repetir/ Joga pedra na Geni!/ Joga bosta na Geni!/ Ela é feita pra apanhar!/ Ela é boa de cuspir!/ Ela dá pra qualquer um!/ Maldita Geni!”

A grande desculpa para as palavras torpes jorrarem pela boca da santidade moralista é esta:

"Um programa como o “Bolsa Família” seria necessário para países que sofrem com guerras, grandes contingentes de refugiados, catástrofes climáticas ou epidemias. Mesmo nesses casos tal programa deveria ser temporário e focado na obtenção da independência financeira dos beneficiados. Nada disso vem ocorrendo de fato. Nem o Brasil foi castigado por “tsunamis” ou furacões e nem os assistidos conseguem sair da humilhante situação de quem recebe uma esmola." (SOUZA, 2007, p.1).

Uma definição que é rapidamente contestada por Zimmermann & Silva (2009), doutores por universidades Alemãs:

"A percepção acima releva uma carência de fundamentação teórica e empírica acerca do mundo real, uma vez que tal afirmativa não se baseou em nenhum estudo aprofundado, além de não se pautar em nenhum conhecimento das diversas experiências internacionais de programas transferência de renda, que surgiram nos países desenvolvidos no século XX, no momento em que Estado de Bem-Estar Social ganha concretude e consolidação. Bastaria estudar os países nórdicos da Europa, pioneiros na introdução de programas de transferência de renda. O Bolsa Família, portanto, não difere em sua concepção principal dos referidos programas adotados há mais de seis décadas pelo Reino Unido em 1948, seguido pela Finlândia em 1956 e Suécia em 1957.”

Como podemos ver, o chamado programa Sozialhilfe ou Bem-Estar é o que inspirou o Bolsa Família. A grande crítica dos países que adotam esse sistema está voltada para todo o planeta e não em si, como ocorre no Brasil. Para eles o programa está presente apenas em países desenvolvidos, porém seria a solução para os subdesenvolvidos. A alegria é a prova dos nove. Nenhum país que escolheu investir no seu povo está quebrado. Nem mesmo o Brasil.

No mês que vem o Brasil completa 515 anos. Apenas nos últimos 12 anos o país fez coisas antes impensáveis. Pagar a dívida com o FMI, sair do mapa da fome e tirar 36 milhões de pessoas da miséria. Vou explicar melhor para que fique claro: há apenas 12 anos, 36 milhões de pessoas acordavam e não tinham o que comer. A cada mil crianças nascidas 50 morriam antes de completar um ano. O Brasil conseguiu um feito que nenhum pais do mundo conseguiu em tão pouco tempo.

Quando falam que o Bolsa Família cria vagabundos, que é uma esmola, que são pagos com o dinheiro dos nossos impostos eu lembro das palavras de Lula em um palaque no Nordeste dizendo “Para quem tem esse dinheiro para pagar um almoço e jogar o troco no lixo é realmente uma esmola. Para quem não tem é o começo de uma dignidade.” Será que as classes A e B nunca refletiram sobre onde era gasto o dinheiro que vai para o bolsa família? Imaginem se no Brasil implementassem, como na Alemanha, imposto para TV e Rádio, imposto para exercer religião. Após a criação do Bolsa Família, 20 milhões de pessoas foram empregadas no Brasil. Onde estão os vagabundos?

Falam que o Mais Médicos ignora milhões de profissionais brasileiros e privilegia Cuba. Sinto muito queridos, mas o programa em relação à saúde recebeu médicos de diversas nacionalidades. Eu mesmo já fui atendido por um português, uma boliviana e um australiano. Quanto aos profissionais brasileiros? Eu é que pergunto: onde estão? No interior Maranhão um concurso com salário de R$35.000,00 foi cancelado pois não havia candidato. NÃO HAVIA CANDIDATO.

Será que as pessoas que vestem verde e amarelo (enquanto o nome do país sugere outra cor) sabem que a gasolina do Brasil é a 39ª mais cara do mundo? E que nos outros 38 países, onde chega a se pagar R$7 por litro, não tem panelaço em prédios de luxo (até porque a Europa considera prédios altos uma coisa cafona) tampouco pessoas ofendendo os mais pobres?

A nossa independência ainda não foi proclamada. Somos emergentes e ficar às cegas, gritando, batendo panela, histericamente não contribui financeiramente em nada para o país. Já dizia o Lula: “gritei muito na minha vida e nunca abafaria o grito de alguém, mas às vezes tem gente que grita e nem sabe porque está gritando”. Foram 502 anos de ordem, 13 de progresso. Sobre a ordem? - Repugna-me, com efeito, o que Musset chamou: "L'art de servir à point un dénuoement-bíen cuit".


PS.: As frases em itálico foram plagiadas de Mario e Oswald de Andrade.


Referências Bibliográficas:

ANDRADE, Mário. Pauliceia Desvairada. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1987.

ANDRADE, Oswald de. O manifesto antropófago. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: INL, 1976.

ZIMMERMANN, Clóvis Roberto & SILVA, Marina da Cruz. O Programa Bolsa Família: lições da experiência alemã. In: REVISTA ESPAÇO ACADÊMICO, nº 98, Julho de 2009, Ano IX.

Referências Webgráficas:


Mesmo por R$ 35 mil, cidade do MA demora 1 mês para achar ortopedista – http://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2013/02/no-maranhao-ha-menos-de-um-medico-para-cada-1000-habitantes.html. - Acesso em 16/03/2015.

Mortalidade infantil no Brasil – http://www.brasilescola.com/brasil/mortalidade-infantil-no-brasil.htm. - Acesso em 16/03/2015.

Programa Bolsa Família é citado em publicação francesa. - Acesso em 16/03/2015. http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/programa-bolsa-familia-e-citado-em-publicacao-francesa.
- Acesso em 16/03/2015.

O Bolsa-família na Europa – http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=255. - Acesso em 16/03/2015.

Geni e o Zepelim – Chico Buarque – http://letras.mus.br/chico-buarque/77259/. Acesso em 16/03/2015.

Geração de empregos (RAIS): 1994/2002, 5 milhões X 2003/2013, 20,4 milhões de empregos. - http://www.fpabramo.org.br/fpadefato/?p=255. Acesso em 16/03/2015.

6 de fevereiro de 2014

Os Bons Costumes


Ele era turrão. Andava de um canto ao outro com seu habitual terno e gravata, cuidando da vida alheia para que fossem mantidos no prumo a moral e os bons costumes, os quais já não eram tão bons, mas assim os nomenclaturavam a fim de não perder o que lhes restavam de costumes. Havia, porém, outros costumes, estes mantidos em segredos por não serem de bom tom. Mentia cinco vezes ao dia para sua subsistência psicológica. Caso não o fizesse (é fato que já o tentara), as mãos lhe tremiam em epilepsia nervosa. Mentia em coisas básicas e supérfluas, como a morte de parentes indesejáveis, classe social, a origem de sua natalidade e, de maneira mais rarefeita, porém não mais verdadeira, a sua perversão. Em criança, observava a cachoeira vizinha da fazenda de seus pais. Muitos jovens ali namoravam e, não raro, deixavam de lado os bons costumes de suas roupas engomadíssimas e banhavam-se nus, alheios de que eram secretamente observados por um menino de quatro anos. Ali, iniciou-se verdadeira adoração ao deus Priapo. Cadernos clandestinos recheados de imagens fálicas, árvores marcadas com obscenidades, e até uma pequena escultura feita a próprio canivete estavam sempre nos caminhos do menino. Ao passo que deixava a infância, vinha como novidade o convívio em sociedade. Os vestiários do ginásio, os banhos coletivos do exército e até mesmo o trabalho como alfaiate não o deixavam abandonar o culto pagão ao falo. Mesmo após seu casamento, com toda a pompa obrigatória, não deixou a Priapo. Em verdade, o deus é quem não o deixava. Cobrava na mente sua adoração. Tomava a imaginação do homem através de imagens corriqueiras e sutis. O ferro onde encaixava o disco no gramofone, as salsichas preparadas pela esposa, o martelo posto de ponta a cabeça e até mesmo o alívio das próprias necessidades. Em tudo estava o onipresente Priapo. Tanto cobrou suas libações e oferendas que o homem, já cansado de ignorar a voz do deus, decidiu secretamente render-se. Certo dia, apareceu na alfaiataria um colega de longa data. Frequentaram juntos não apenas o ginásio, mas também o quartel de modo que conhecendo mutuamente às obscenidades que tal conversa produziria, trancaram-se ao gabinete do alfaiate. Ouviam-se risos, silêncios e alguns gritos de dor, certamente causados por uma agulha desgovernada. Passaram ali tempo suficiente para a confecção de um roupeiro completo. Enxugando o suor com lenços trocados, os dois homens saíram sorridentes e felizes pelo negócio acordado e pelo reencontro. O colega seguiu seu caminho e o alfaiate continuou a mentir sua adoração a Priapo em favor na moral e dos bons costumes.

13 de janeiro de 2014

The Black Power



A coisa está branca. Infelizmente, parece que um pombo gigante passou por nossas cabeças e despejou seus dejetos que respingaram nos negros, nos pobres, nos índios, nas mulheres e nos gays. Os vermes conservadores estão insatisfeitos com nossa felicidade. Não aguentam ver gays se casando e sendo felizes. Não suportam índios ganhando na justiça o direito de ficar na frente estádio. Não lhes desce pela garganta negros entrando em shoppings e comprando mais que eles.

Nós somos a pedra no meio do caminhos dos reacionários que pagam de moralistas e defensores dos valores cristãos, e que garantem mensalmente a sobrevivência de putas e travestis. O último reacionário que tive o desprazer de conhecer foi também a pessoa mais mentirosa que conheci. Religião, classe social, sexualidade, nacionalidade: nada que saída da sua boca era verdadeiro. Nem sequer a sua "causa".

Por que homossexuais deixariam seus lindos beijos de amor presos em quatro paredes? Para satisfazer os mentirosos? Por que será que a única personagem negra da novela das oito/nove é também a única soropositiva da história? Por que só os ônibus que vêm da favela são revistados em Copacabana? Por que tenho que chamar a favela de comunidade se ninguém na favela a chama assim? Por que temos uma comissão evangélica no congresso de um país "laico"? Por que samba e funk são coisas de pobre e preto, mas se Maria Rita e Caetano Veloso foram indicados ao Grammy cantando-os devem ser chamados se identidade popular?

Impedir uma criança com black power de ser matriculada numa escola de ricos é fácil. Estou pra ver alguém apontar o dedo para a filha da Beyoncé e chamá-la de "pretinha" ou coisa assim. Tomo para mim as palavras do Rappa: Branco, se você soubesse o valor que o preto tem. Tu tomavas banho de piche, branco e, ficava preto também!

A coisa está branca demais aqui.

30 de novembro de 2013

22 de setembro de 2013

SUICIDA

Uma jovem belíssima corre pelo convés do navio mais luxuosos de que se tem notícia. No caminho, esbarra em algumas pessoas esnobes, cheias de dinheiro. A respiração ofegante e as lágrimas nos olhos. Ela segue à popa do navio. O convés finalmente termina em uma grade que separa a jovem do infinito. A morte nunca foi tão desejada. Enquanto seu corpo ultrapassa os limites da proteção, sua mente suicida grita. Grita o que queria ser e não foi. Os jantares finos, cheios de conversas fiadas, pessoas impecavelmente bonitas e desprovidas de quaisquer infelicidades. De repente se vê em uma mesa cheia de vestidos e paletós, sorridente, como se dominasse a felicidade ao seu dispor. Sorri enquanto a dor a tortura. É uma tortura oriental lenta e sorrateira. O fim é logo ali, depois da popa.

Já me senti assim algumas vezes. Vezes tais em que as lágrimas não são suficientes para fazer sair a dor que ecoa na alma. E enquanto se desespera, o sorriso não sai dos lábios. É preciso dizer que tudo é perfeito. Uma aparência alegórica. Há algo podre em cada um de nós, que em seus carros luxuosos e suas casas seguras não se pode ver.


Se eu beber até a morte ninguém vai perceber. Talvez não houvesse dor. E quem se importaria com a dor de quem tem tudo o que se pode sonhar. A grama do vizinho só é mais verde vista de um dos lados do arco-íris. De perto é podada irregularmente. Feia. No fundo todos somos suicidas, só não temos coragem para isso.

18 de setembro de 2013

Como um judeu fugindo do holocausto

Extraído do Livro "A Origem de Deus"

A última vez que eu pisei em uma igreja evangélica foi a gota d'água. Vi pessoas que eu amava sendo humilhadas por cometerem erros e julgadas por pessoas tão erradas quanto. Enquanto umas se sujeitavam a tudo para fazer o bem, outras aterrorizavam minha mente com seus argumentos santos de que ter um equipamento de som supera a necessidade de um banheiro digno aos fiéis. Fiéis a quem, afinal?

O cristianismo segue defendendo a “família” como base da sociedade, usando teses científicas das quais lutou para manter underground e que obviamente não domina. A família sempre foi apenas uma fotografia. Pai, mãe e filhos infelizes reunidos em uma cena para mostrar ao mundo o que não eram. A falsidade sempre esteve no meio de nós. O problema não é você crer em uma mentira, mas querer fazer com que a sociedade viva isso como se fosse verdade. Confesso que cheguei a acreditar nessas mentiras. A defendê-las. Proclamá-las.

Enquanto eu pregava na igreja, liderava o grupo de teatro, doava o meu tempo para “A Casa do Senhor”, eu era também o gay - e claro, ninguém sequer desconfiava disso. Antes de alegar, caro leitor, que sou doente, que há cura para mim, que isso é uma escolha, etc, pergunto-lhe: quando você escolheu ser heterossexual? Então, não foi uma escolha? Que interessante. Que remédios devo tomar para virar heterossexual? Você tem habilitação científica para receitar algum? É estudioso da área? Entendo...

Darei preferência ao termo GAY por ser o que mais me agrada e também por ser o termo HOMOSSEXUAL, uma classificação contemporânea e desnecessária, uma vez que em milhares de anos da história da humanidade a relação entre pessoas do mesmo sexo permaneceu normal até o advento do judaísmo. Como tradutor e profissional da área posso afirmar com propriedade que não há no novo testamento qualquer referência à homossexualidade pecaminosa, ao contrário há indícios que grandes nomes citados na bíblia sejam homossexuais.

Aos quatro anos de idade eu já sabia que gostava de homens e não de meninas. Lembro que passava no SBT um programa da Carla Perez e enquanto todos admiravam a beleza da loira do tchan, eu babava pelos dançarinos.

Aos sete anos, um episódio me marcou. A família comprou um fogão que acabara de chegar. Estávamos eu e minha mãe em casa e fomos desfazer a embalagem. Com medo que a tampa de vidro quebrasse eu dei um grito. O cristianismo que todos dizem ser bom fez a pessoa que eu mais amava olhar pra mim e dizer: “Eu não quero saber de filho boiola!”. Aos sete anos eu não soube o que dizer. Disfarcei, entrei no meu quarto e chorei silenciosamente. Minha infância foi completamente marcada por momentos de choro em solidão.

Comecei a falar sobre ser gay com alguns amigos aos 14 anos. Livrei-me de um peso que ninguém que não tenha passado por isso conseguirá compreender. Não se trata de afirmar-se gay, mas poder ser. A liberdade de poder existir e poder compartilhar como qualquer pessoa os seus sentimentos sem que isso gere ódio.

Aos 20 anos passei pelo primeiro caso de homofobia. E por mais que algumas pessoas insistam em dizer que ela não existe, é fato que vêm de pessoas que você menos espera. Era aniversário de um amigo. Quando fomos nos despedir eu quis abraçá-lo como todos fizeram. Ele se esquivou de mim como se eu fosse um bicho com uma doença contagiosa. Alguns disseram “que isso, cara? Ele só quer te dar um abraço”. Duas horas antes ele havia dito que eu era um dos seus melhores amigos. Eu chorei outra vez. Passei uns dois dias sem comer. Meu amigo me pediu desculpas e pediu que esquecesse a cena. Como?

Essa semana li que um certo deputado a favor da cura gay mandou prender duas jovens que estavam se beijando. Por que apenas uma forma de amor é justa? Por que eu não posso amparar a pessoa que eu amo com tudo o que eu tenho? Hitler propôs que os judeus eram uma ameaça à sociedade, faz isso em nome de deus. Propôs que fossem levados ao campo para tratamento. O deputado em questão propôs o mesmo em relação aos gays.

É muito fácil fazer chacota com uma luta que não é sua. É muito fácil chamar hipocrisia de santidade, subir num altar e pregar que "as literaturas corrompem o cérebro humano" baseando-se em uma literatura sem autoria definida e de tradução duvidosa. É fácil demais impor costumes cabrestos de um fanatismo religioso à uma sociedade que aceita tudo pronto. É fácil demais dizer que gays colocam uma amarra na boca de quem os chama de aberração abominável e afirma isso como uma demonstração de amor e cuidado. O que essas pessoas tentam tanto conservar? A mulher presa a um gineceu particular? Armários não apenas para roupas, mas para seres humanos? Uma família infeliz mascarando um sorriso para uma foto? Conservar negros tendo que usar outra entrada em lugares públicos para não "contaminar" o ambiente? Ou ainda manipular toda uma sociedade para que a personagem mais famosa do maior autor do Brasil fosse representada branca ao invés de negra como era criatura e seu criador. Tem gente precisando entender que número de mortos se refere à pessoas e não à personagens de revistas em quadrinhos.

Eu sinto como se as pessoas quisessem me trancar dentro da minha própria cabeça e eu tivesse que ficar fingindo que acredito como um judeu fugindo do holocausto.

14 de agosto de 2013

Sexo como antigamente

- No meu tempo as moças não faziam isso não. A gente namorava com os olhos. Um arrepio, se o menino olhasse de volta. Não vou dizer que não pensávamos em sacanagem. Pensávamos e muito. Mas era diferente. As cuecas eram em outro formato e quando saíamos para as lojinhas ficávamos imaginando aqueles meninos vestindo aquele pedaço de pano, não esse shortinho boiola que os homens usam hoje em dia.

- Que nada. Eu era bem safadinha. Lembro muito bem a primeira vez que vi um piru. Meu quarto tinha janela que dava pra rua e uma vez o menino não aguentou e foi fazer xixi. Eu ficava escondida e deixava apenas uma fresta para poder espiar. Achava engraçado ele sacudindo.

- A primeira vez que eu vi um pinto foi o do meu pai. Era nojento. Mole, grande e cabeçudo. Mamãe tinha uma falta de gosto. O pinto que eu mais gostei de ver foi o do Paulinho.

- Aquele seu namoradinho?

- Sim. Era branquinho e com a pontinha rosa. Mas fiquei com medo de pegarem a gente atrás da árvore. Eu gostava de admirar.

- Você só ficava olhando? Se fosse eu teria feito tanta coisa com ele.

- Mas eu fiz! Não conte isso a ninguém: eu coloquei na boca. Não perdi a virgindade, pois ia ter problemas no casamento e poderia engravidar. Foi tão bom. Quase matei o menino do coração. Levei tempo pra entender que não podia bater nos dentes.

- E você bebeu? Ai que nojo.

- Vai me dizer que você nunca bebeu?

- Nunquinha.

- Pois é muito bom. Essa juventude de hoje não sabe aproveitar nada. Essas moças não sabem se preservar. Saem com todo mundo, mostram a bunda pra todo mundo.

- É mesmo. A filha da vizinha se perdeu, você soube?

- Menina, não me diga? Tão bonitinha... E quenga. Invés de esperar.


- É por isso que eu sempre digo pra Rita: “Rita tu sai da janela que as moças desse lugar nem se demora donzela, nem se destina a casar”

10 de agosto de 2013

Abominando o preconceito


Estou quebrando o jejum de meses sem escrever para o blog para defender uma causa que também é minha e digo logo de antemão que a milha sexualidade não está sob discussão, uma vez que não preciso ser gay para defender seres humanos da injustiça cometida por monstros sem escrúpulos.

Essa história de que “abomina o pecado, mas ama o pecador” é uma grande piada. Aquilo que você faz é indissociável ao que você é. O cantor o é porque canta, assim como o ladrão por que rouba e o gay porque faz sexo com outro homem. Não é possível que se aceite o preconceito mascarado como um llobo na pelo de uma ovelha.

O casamento gay é mais que necessário não para dizer que gays vão transar abertamente, mas pelos direitos que são necessários. Se um casal gay não tem os devidos direitos, a morte de um deles pode causar muito mais sofrimento que o habitual: uma família pode impedir questões financeiras e até emocionais.

A justificativa dada por pastores da mídia foi usada por Hitler para justificar o preconceito. Se a homossexualidade é tão prejudicial ao desenvolvimento da espécie por que será que nossas casas estão repletas de obras de arte oriundas de homossexuais? Não consigo conceber minha playlist sem Cazuza, Fred Mercury, Renato Russo, Ney Matogrosso, Adriana Calcanhotto, Ana Carolina, Zélia Duncan, Cássia Eller, Daniela Mercury, Maria Gadú, Netinho, Ricky Martin entre tantos outros. Só falta agora proporem tirar das lojas livros de Caio Fernando de Abreu, ou queimarem a Monalisa. E um dos maiores nomes do futebol atual porque carrega o nome do imperador com a maior demonstração de homossexualidade da história.


Deus criou macho e fêmia, todos com cu, o que passa disso é hipocrisia. A mentira de que a homossexualidade é abominável foi repetida tantas vezes que virou uam verdade para os incultos. A “sodomia” foi usada até o século XIX pelo exército de Napoleão como tática de guerra. Deixo-lhes a frase dita por JK Rowling “Vá em frente e pesquise, um pouco de investigação não faz mal a ninguém.”

17 de julho de 2013

A verdadeira criação

Não consigo conceber uma idéia mais peçonhenta que a de um deus magnânimo e piedoso que coloca uma árvore do bem do MAL para o homem ser tentado. Que criatura mais nefasta seria capaz de criar seres à sua imagem e semelhança e chamá-los abomináveis? Ora, pois, o homem o criou e não o contrário. A criatura tornou-se criadora pela necessidade íntima de uma passividade. O dendrum no meio do jardim seria para Eva como uma tortura oriental em sua cabeça dizendo, gritando, esperneando: “coma aquela porra!!!”. Como não bastasse essa atrocidade, criou-se de deus o diabo. Como parte do próprio, uma outra criatura, semelhante ao seu criador com a única função de ser pisado, humilhado. O homem criou deus à sua imagem e semelhança: perverso, soberbo, caprichoso e cheio de vaidades. Nada na terra é mais paradoxal. E se o mistério é um paradoxo, onde se encaixa a racionalidade de culto e as revelações obrigatórias de deus? Adão se masturbava tranquilamente no Edem e deus só criou a mulher para que ele pudesse fazer aquilo com um número maior de buracos. O homem cria-se deus sobre a mulher. Eles fazem sexo sem casamento. Eles comem até passar mal. Por fim: deus tem sua origem puramente humana. Freud me entenderia perfeitamente agora. A mente humana tem necessidade de criar. Ela é a verdadeira criadora.

16 de junho de 2013

A Copa da Casa

Rio de Janeiro, 2013, século XXI, internet 4G (ou quase), transporte público ultramoderno, tecnologia de ponta nas casas de toda a população, educação batendo recordes de sucesso escolar e hoje me deparo com esta cena anacrônica, descabida pelo avanço dos nossos tempos. Em plena Rio Branco, desce uma senhora com três filhos (um menino e duas meninas) de um ônibus superconfortável (desses que só o Rio de Janeiro tem). A mulher bem arrumada acomodou os filhos na calçada, desarrumou os cabelos, passou um pouco de terra nas maçãs do rosto e começou: “Moço! O senhor pode me ajudar com um real? Moço!”.

De início, achei excelente a ideia: uma encenação teatral em via pública. A cidade respira cultura e isso é uma inovação. Quase aplaudi o espetáculo. A peça era tão boa que alguns transeuntes interagiam e entregavam-lhe moedas e até algumas notas. De repente, esfrega algo nas ventas do menino (presumo que era pimenta do reino), que escarra a meleca e pendurada fica para que desse mais realidade ao roteiro.

Uma senhora passa e diz: “Vá trabalhar!”, recebendo como revide algo que não me permitirei escrever aqui. As crianças juntaram-se ao coro: “Moço! O senhor pode me ajudar com um um real? Moço!”. Se alguém os ignorava, uma barulhera tomava conta do ambiente. Deduzi que aquilo fazia parte do processo catártico e que deveria ser impressionantemente realistíco.

Algumas moedas depois a mulher retirou da bolsa uma toalha mais branca que o uniforme do papa, limpou o rosto e as crianças. Penteou os cabelos e tomou o próximo ônibus. Achei que veria os atores curvarem-se em agradecimento no final da peça. Nem o diretor apareceu. Acho que não era um peça. Mas onde já se viu usar a rua como se fosse a sua copa, e ainda por cima pedir dinheiro como se fossemos obrigados a dar. Não adianta reclamar, dizer que não tem emprego. A Dilma solucionou todos os nossos problemas e junto com o Sérgio Cabral e o Eduardo Paes fizeram o Rio melhorar.

-Alfredo!!!! Acorda! Tá na hora de tomas o seu remédio.
-Ãh? O quê?... Ahhh velha chata...
-Aproveita que esse é o último.
-Você não comprou mais?
-Fiz as compras do mês. Acabou o dinheiro.
-Vou ao banheiro.
-Vai como? Esqueceu que você não anda e que não sai desse quarto há anos?
-Mas e a senhora com os filhos pedindo dinheiro?
-Você sonhou, meu filho.

5 de junho de 2013

O Ladrão de Galinhas


por Nathan Rodrigues

06/05/2013

Houve um tempo em que ladrão era considerado sujeito corajoso. O cabra entrava nas nossas propriedades, roubava nossa horta, o nosso pomar e se fosse mais atrevido, surrupiava as galinhas. Isso, claro, depois de passar pelo capataz da propriedade que levava de um lado ao outro sua espingarda e os cães ferozes.

Engraçado é que hoje ninguém mais quer roubar galinhas. Tenho até saudades dos ladrões de galinha. Hoje em dia ladrão rouba até à distancia, via internet. Tem até quem roube A INTERNET. Outro dia fui assaltado da maneira mais estúpida que se pode ocorrer: comprando tomates no supermercado. Não olhei direito e acabei perdendo treze reais em troca de um quilo de tomate.

Lembrei, outro dia, dos batedores de carteira que atuavam no centro da cidade. Eles se preocupavam em esconder-se para não serem apanhados. Curioso é que já tive que me esconder para não me levarem com carteira e tudo.

Cleptomaníacos também são extremamente dignos da minha atenção. Especialmente pelos objetos sutis que costumam ser subtraídos por eles. Conheci certa vez uma moça fascinada por roubar talheres. Esta foi responsável pela renovação dos faqueiros de metade dos restaurantes da cidade.

Em tempos de pobreza, havia uma senhora aqui na vizinhança que costumava roubar papel higiênico. Entrava nos banheiros públicos e enchia as sacolas com folhas duplas e trinta metros, deixando os outros usuários de mãos abando. Ou melhor... Deixa pra lá.

Como estava dizendo, tenho saudades do ladrão de galinhas, que roubava apenas para comer e nada mais. Hoje há muita maldade no mundo. As pessoas roubam de tudo: saúde, educação e principalmente dignidade. A realidade de agora mostra que a toda hora alguém está roubando. Já ouvi dizer que é natural do ser humano. Não sei, só sei que às vezes bate uma saudade do ladrão de galinhas.

2 de junho de 2013

Vícios do novo milênio.

É incrível como nossa necessidade de computadores propicia nossa inércia artística, criativa, cultural e principalmente social. Estou sem computador há um tempo, nem por isso desconectado. Meu celular permanece 24 horas com wifi ligado. Estou escrevendo a partir dele. Ele está lá quando eu acordo e permanece até quando eu apago. suas baterias são recarregadas junto com as minhas. Somos parte um do outro. E eu que não tinha menor coordenação motora para com a tecnologia touchscreen raramente tiro o meus dedos do ecrã.

11 de abril de 2013

Outro Ser

Talvez não seja possível descrever o que sentimos com tamanha perfeição, todavia, a possibilidade de traduzir ao mundo traz-nos uma esperança além daquela habitual de ficarmos com aquilo preso dentro de nós. Apaixonar-se e desencontrar-se é tão comum que nos faz mal. Quem disse que a felicidade está a nossa porta. Eu corro, corro, corro e não consigo alcançá-la.

Imaginem apaixonar-se por alguém e descobrir que tal pessoa atrai-se por seres de um sexo diferente do seu. Não digo isto por preconceito, mas por efeito de lágrimas que rolaram. Isso tudo sem sequer dizer uma palavra. Nem mesmo um “Eu te amo”.

O cruzar de olhares, oi matinal e o boa noite cortês de sempre. A voz firme de quem precisa manter boa impressão. Por que isso se meu íntimo se torna ínfimo ao seu lado? Por que quero beijar-te despindo nossos corpos publicamente sem preocupar-me com nada e nado para longe como alguém que precisa ganhar uma competição bem longe? Não desejo mais o seu corpo. Eu quero é a sua vida.

Hoje achei que minhas lágrimas eram por ti. Menti a mim. As lágrimas eram por mim. Eu sou digno de pena. Eu estava ali vendo você passar de mãos dadas a outro ser. Mostrando publicamente a outro o que e queria ter. E se eu mudasse de sexo? E se eu morresse? E se aquela criatura usurpadora morresse? E se você morresse? Nossos corpos se desconversam.