31 de agosto de 2011

Oito anos...


Oito Anos - Adriana Calcanhoto
Dunga / Paula Toller

Por que você é Flamengo
E meu pai Botafogo
O que significa
"Impávido colosso"?

Por que os ossos doem
enquanto a gente dorme
Por que os dentes caem
Por onde os filhos saem

Por que os dedos murcham
quando estou no banho
Por que as ruas enchem
quando está chovendo

Quanto é mil trilhões
vezes infinito
Quem é Jesus Cristo
Onde estão meus primos

Well, well, well
Gabriel...

Por que o fogo queima
Por que a lua é branca
Por que a terra roda
Por que deitar agora

Por que as cobras matam
Por que o vidro embaça
Por que você se pinta
Por que o tempo passa

Por que que a gente espirra
Por que as unhas crescem
Por que o sangue corre
Por que que a gente morre

Do que é feita a nuvem
Do que é feita a neve
Como é que se escreve
Reveillon

Novo mundo dos professores


Tive uma compulsão por escrever o que estava pensando. Discutimos sobre professores e professores. Há aqueles que lecionam por que gostam, outros por não ter opção. De uma coisa é certa: não há professores desempregados. Por mais que a profissão não seja reconhecida com o seus devido financeiro acredito que as coisas estão mudando.

Há alguns anos, samba era coisa de malandro, que usava chapéu panamá e terno branco. Crianças desobedientes eram levadas à palmatória, pois “criança só aprende assim”. Mulheres serviam para cuidar da casa e homens pensavam que cuecas boxer eram “coisas de viado”. Hoje em dia, o malandro é outro. Usa boné de aba reta, oxigena o cabelo e anda em todo lugar ouvindo músicas pornográficas em ritmo de funk.

O velho malandro não morreu, compõe versos eruditos, grava discos quando quer e atende pelo nome de Chico Buarque de Olanda. Crianças sabem mais os seus direitos que os eleitores, e fazem uso disso. Meninas de 16 anos vão morar sozinhas na cidade grande, transam com dois homens diferentes por semana e ainda batem o pé: “não quero ter filhos, não vou casar”.

Existem professores que ganham R$7.000,00. Ganham porque possuem mestrado, doutoradado e tudo o que mais for. Há pessoas que param no tempo e vão ficar ganhando R$770,00 por toda a vida. Quem dá aula, faz porque gosta. Eu não consigo me ver longe de uma sala de aula. Cada aluno sabe o quão bom professores tem e o quão ruins outros podem ser. Esta foi a discussão da aula de Linguística Aplicada na faculdade.

Tive uma professora chamada Solange, de Redação, com a qual tive uma leve discussão. Nunca fui de debater com professores, entretanto, ela explicou erradamente uma regra de crase. Eu mostrei o livro e ela continuou assumindo o errado por certo. Consultei outros professores e até a passiva coordenação pedagógica da escola que me disse: “faça errado na prova dela, mas no vestibular use seu conhecimento”.

Em contra partida, tive uma amiga-professora (com quem ainda tenho contato e espero ter sempre) chamada Karine Luiz, de literatura. Esta além de me ensinar a pensar e entender, mostrou a mim e aos meus colegas o quanto é bom quebrar os tabus que dizem: “não se pode dar aulas sem ser arbitrário, despótico”. Tenho certeza que não é ético comparar profissionais, todavia, também é anti-ético ensinar errado aos alunos e fazer com que estes tenham traumas ou aversão à alguma matéria. As coisas mudam e enquanto os péssimos caem, os ótimos sobem na roda da educação (e tomara que os salários também).

30 de agosto de 2011

Voltando pra casa

Vista do ponto onde peguei o ônibus
Se há algo que seja mais característico de um pobre do que um ônibus, eu desconheço. Todo mundo, uma vez na vida, faz uso de um coletivo independente do destino ou conforto que ele possa proporcionar. Pois, bem, estou reunindo minhas forças após um longo dia de trufas e letras para partilhar com você, leitor, a minha linda e bela volta ao lar.

O ônibus que eu peguei
Após longa espera, no lindo cenário da Praia de Icaraí (Niteroi - RJ), tomei um ônibus que deixar-me-ia próximo da minha casa. Com a demora, muitas pessoas também o esperavam. Tomei um acento no centro do coletivo e logo acabaram-se os lugares. Conforme a viagem ia acontecendo mais e mais trabalhadores, estudantes e desocupados entravam deixando pouco ar lá dentro.

Uma rapaz ficou ´próximo a mim e ao dar passagem à uma senhora encolheu-se em cima de mim. Seu pênis ficou a poucos centímetros do meu rosto. Olhei para cima várias vezes na esperança de que ele percebesse o meu desconforto, mas nada fora feito pelo tal rapaz.

Quando este saltou, uma moça grávida tomou o seu lugar. O ônibus inteiro ofereceu-lhe assento, mas a jovem preferiu ficar em pé, “já vou saltar” - ela disse. Praticamente segurei o bebê em meu colo dentro da barriga da gestante.

Minha parada se aproximava e eu enfrentaria uma Odisseia para sair do ônibus. Parece-me que pessoas com barrigas protoberantes adoram ocupar espaços próximos à porta. Acho que vou colocar um neon em minha testa  escrito “Não sou anatômico”. Perdi seis quilos, entretanto, para uma pessoa quarenta quilos acima do seu peso, isto não significa quase nada. “Dá licença!” - gritei. Finalmente consegui saltar. Amanhã começa tudo outra vez.

29 de agosto de 2011

Pessoas


Há pessoas e pessoas
Há sonhos e ventos
Pessoas que fazem sexo
Pessoas que fazem amor
Umas que brilham
Outras que reluzem
Pessoas que choram
E pessoas que dão o ombro
Há pessoas amigas
E inimigas

Há pessoas Tweeter
Outras Facebook
Pessoas que têm sentimento
Pessoas que sentem pena
Pessoas nautas
Internautas
Urbanas

Há pessoas sacanas
Beatas
Babacas
E das matas
Intelectuais
Altivonasais
Pessoas e pessoas
De todos os carnavais

Pessoas que curtem funk
Há pessoas Restart
Outras Luan Santana
Há pessoas também Bananas de Pijamas

Há pessoas Xerox
Outras Hp
Umas Globo
Outras Redetv
Há quem vá de ônibus
Outras de metrô
Há pessoas honestas
Outras gigolô

Umas comem feijão
Outras caviar
Umas têm reputação
Outras só querem dar
Há pessoas e pessoas entre o céu e o mar
Ventos que sompram
Outros pedem carona

Há pessoas mãe
Outras “pãe”
Pessoas do som
Outras da imagem
Que carregam bagagem
Ou simplesmente o bagaço

Há pessoas eu
Outras você
Uns são nós
Outros nossos
Fogo e gazolina
Uns Aline Barros             
Outros Ana Carolina
O que importa é uma só
Há sempre pessoas indo ao pó

27 de agosto de 2011

A Fera - Capítulo 2


Eu não poderia perder aquela oportunidade. Nenum jornalista havia conseguido tal matéria na história.

-         A senhora se arrepende do que fez?

-         Mas de jeito algum. Faria outra vez, se necessário.

-         O que exatamente você sentiu ao cometer o ato?

-         Liberdade. Aquilo representava a liberdade de um amor que estava preso dentro de mim há muito tempo.

-         E cometer o crime não seria levá-la ao cárcere ao contrário do que você sentia? Você não pensou que iria ser pega em nenhum momento?

O anfitrião deu uma risada, como se a minha pergunta fosse sem sentido. Talvez fosse.

-         Quantas pessoas são mortas por dia e ninguém sequer ouve falar?  Só houve aquele rebuliço todo por conta da imprensa e de jornalistazinhos sensacionalistas como você.

Ajeitei novamente minha gravata. Minha cabeça começou a doer e assim puder dar atenção ao que estava em volta. Um segundo que parecia uma hora inteira. Tudo estava vermelho. Vermelho fogo. As janelas e seus vidros derretidos pelo fogo me deram a visão dele. Estava ali. Putrefado e asseado em seu uniforme já desbotado e escuro. Sim, era ele... Era ele. E olha pra mim como se me desse uma ordem.

-         Podemos acabar logo com isso. – Disse meu anfitrião irritado com a distração.

Será que se irritaria se eu pedisse outra entrevista?

-         Aquele ali, na janela. Não é...
-         Sim, é. Por quê?
-         Gostaria de entrevistá-lo.
-         Ele não dá entrevistas.
-         Mas...
-         Termine esta e verei o que posso fazer por você.

As perguntas me fugiram da mente. Só conseguia pensar nele.

 ............................. continua

25 de agosto de 2011

Escrever

por Joaquim Ferreira dos Santos in O GLOBO. Janeiro de 2011.


A estudante perguntou como era essa coisa de escrever. Eu fiz o gênero fofo. Moleza, disse.

Primeiro, evite estes coloquialismos de “fofo” e “moleza”, passe longe das gírias ainda não dicionarizadas e de tudo mais que soe mais falado do que escrito. Isto aqui não é rádio FM. De vez em quando, para não acharem que você mora trancado com o Domingos Paschoal Cegalla ou outro gramático de chicote, aplique uma gíria como se fosse um piparote de leve no cangote do texto, mas, em geral, evite. Fuja dessas rimas bobinhas, desses motes sonoros. O leitor pode se achar diante de um rapper frustrado e dar cambalhotas. Mas, atenção, se soar muito escrito, reescreva.

Quando quiser aplicar um “mas”, tome fôlego, ligue para o 0800 do Instituto Fernando Pessoa, peça autorização ao bispo de plantão e, por favor, volte atrás. É um cacoete facilitador.

Dele deve ter vindo a expressão “cheio de mas-mas”, ou seja, uma pessoa cheia de “não é bem assim”, uma chata que usa o truque de afirmar e depois, como se fosse estilo, obtemperar.

Não tergiverse, não diga palavras complicadas, não escreva nas entrelinhas. Seja acima de tudo afirmativo, reto no assunto. Nada de passar páginas descrevendo o clima da estação, esse aborrecimento suportável apenas quando vemos as curvas da Garota do Tempo recortadas contra o chroma-key do “Jornal Nacional”.

Abaixo o prólogo com a lente aberta, nada daquelas observações sensíveis sobre a paisagem e, a não ser que você seja o Dashiell Hammett ou o Raymond Chandler, esqueça o queixo quadrado do bandido ou a descrição pormenorizada dos personagens. Corte o que for possível. Depois dê uma de Raymond Carver e, nem aí para os pruridos da vaidade, mande o resto para o editor acabar de cortar.

Sempre cabe uma linha a menos no texto, é o efeito Rexona aplicado na axila gramatical. Evite essas metáforas complicadas, passe por cima de expressões como “em geral”, como está no primeiro parágrafo, pois elas têm a mesma função-paralelepípedo dos parênteses, dos travessões. Chute para fora da página tudo mais que faça as pessoas tropeçarem na leitura ou darem aquela ré em busca do verdadeiro sentido da frase que passou.

Deixe tudo em pratos limpos, sem tamanho lugar-comum. Ouça a voz do flanelinha semântico gritando a chave para o bom texto. “Deixa solto, doutor.”

É mais ou menos por aí, eu disse para a menina que me perguntou como é essa coisa de escrever.

Para sinalizar o trânsito das ideias, use apenas o ponto e a vírgula, nunca juntos. Faça com que o primeiro chegue logo, e a outra apareça o mínimo possível. Vista H emingway, só frases curtas. Ouça João Cabral, nada de perfumar a rosa com adjetivos.

Mergulhe Rubem Braga, palavras, de preferência com até três sílabas. “Pormenorizada”, vista acima, é palavrão absoluto. Dispense, sem pormenores.

O texto deve correr sem obstáculos, interjeições, dois pontos, reticências e sinais que só confundem o passageiro que quer chegar logo ao ponto final. Cuidado com o “que quer” da frase anterior, pois da plateia um gaiato pode ecoar um “quequerequé” e estará coberto de razão. A propósito, eu disse para a menina, perca a razão quando lhe aparecer um clichê

desses pela frente.

Você já se livrou do “mas”, agora vai cuidar do “que” e em breve ficará livre da tentação de sofisticar o texto com uma expressão estrangeira. É out. Escreva em português. Aproveite e diga ao diagramador para colocar o título da matéria na horizontal e não de cabeça para baixo, como está na moda, como se estivesse num jornal japonês.

Pode-se escrever baixinho, como faz o Verissimo, que ouviu muito Mario Reis para chegar àquela perfeição de texto de câmara. Outra opção é desabafar pelos cinco mil alto-falantes o que lhe vai na pena da alma, como faz o Xico Sá, que aprendeu a escrever com o Waldick Soriano. Escreva com a sonoridade que lhe aprouver, nunca com cacófatos assim ou verbos que façam o leitor perguntar para o vizinho do lado que maluquice é essa de “aprouver”. Fuja da voz passiva, da forma negativa, do gerundismo e principalmente da voz dos outros. Se falo fino, se falo grosso, ninguém tem nada com isso. O orgulho do próprio “falo”, e fazê-lo firme e com charme, é uma das chaves do ofício.

De vez em quando, abra um parágrafo para o leitor respirar. Alguns deles têm a mania de pegar o bonde no meio do caminho e, com mais parágrafos abertos, mais possibilidades de ele embarcar na viagem que o texto oferece. Escrever é dar carona. Eu disse isso e outro tanto do mesmo para a menina. Jamais afirmei, jamais expliquei, jamais contei ou usei qualquer outro verbo de carregação da frase que não fosse o dizer. Evitei também qualquer advérbio em seguida, como “enfaticamente”, “seriamente” ou “bemhumoradamente”. Antes do ponto final, eu disse para a menina que tantas regras, e outras a serem ditas num próximo encontro, serviam apenas de lençol. Elas forram o texto, deixam tudo limpo e dão conforto. Escrever é desarrumar a cama.

Menos da metade das crianças do 3º ano se sai bem em matemática



Três em cada dez alunos da região Norte aprendem o esperado na disciplina

Pesquisa nacional divulgada nesta quinta-feira (25) mostra que apenas 42,8% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental (crianças com 8 anos) aprenderam o que era esperado em matemática. Isso significa que eles conseguem, por exemplo, dominar a adição e subtração, além de resolver problemas que envolvem notas e moedas. Em leitura, o índice é um pouco maior: 56,1%.

Os dados são da Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização), feita pelo Todos Pela Educação, Instituto Paulo Montenegro, Fundação Cesgranrio e o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).Os resultados foram apresentados nas escalas Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) de leitura e matemática, elaboradas pelo MEC (Ministério da Educação).

Os alunos que atingiram 175 pontos aprenderam o esperado para o nível. Em matemática a média nacional ficou em 171 pontos. Acima desta taxa, ficaram apenas as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Mais de 55% dos alunos do Sul aprenderam o esperado na etapa. No Norte, o índice foi de apenas 28% e no Nordeste, de 32%.

Os resultados também variam entre os alunos das escolas públicas e privadas. Enquanto a média nacional dos alunos da rede particular foi de 211 pontos, a da rede pública ficou em 158. A média das públicas em nenhuma das regiões atingiu o mínimo esperado (175 pontos). O pior desempenho foi o da região Norte, com 145 pontos – apenas 22% dos estudantes atingiram a média. E o melhor foi o do Sul, com 171 – 44,5% tiveram resultado adequado.

Priscila Cruz, diretora executiva do Todos pela Educação, afirma que é possível perceber a desiguldade educacional no país logo nos primeiros anos de escolaridade. Segundo ela, o diagnóstico precoce dos problemas deve ajudar as prefeituras a tomar providências, como melhorar materiais e investir na formação de professores. Maior atenção à educação infantil também é vista como um desafio para o país.

- O direito à educação é o mesmo para todos. Temos que reduzir essas desiguldades.

João Horta, do Inep, diz que os resultados podem ser revertidos com mais investimentos. Ele defende a apliação do sistema de ensino integral, para melhor atendimento a alunos com dificuldades.

- Aumentar as horas de estudos das crianças pode minimizar as diferenças.

Leitura e escrita


O desempenho médio dos alunos que fizeram a prova de leitura foi de 185 pontos na escala. O número varia de acordo com a região. O Sul, Sudeste e Centro-Oeste tiveram resultado acima da média nacional (175) com, respectivamente, 197, 193 e 196 pontos. Novamente abaixo da média ficaram o Norte e o Nordeste com, respectivamente, 172 e 167 pontos.

Enquanto 42,5% dos alunos da região Nordeste conseguem, por exemplo, identificar temas de uma narrativa, localizar informações explícitas e identificar características de personagens, mais de 64,6% do Sul fazem o mesmo.

Os alunos da rede privada atingiram, na média nacional, 216 pontos em leitura, e os da rede pública fizeram 175 pontos. Em relação à escrita, 65,8% dos estudantes do Sudeste tiveram bom desempenho. No Nordeste o número ficou em 30,1%, abaixo da média nacional, que foi de 53,4%.

A Prova ABC foi aplicada nos primeiros meses de 2011 a uma amostra probabilística de 6.000 alunos. A seleção levou em conta a proporção das escolas de cada rede